O amigo da bola


André Viegas

O Dedé não gostava de falar.
Os grandes não entendiam, achavam que ele não sabia. Ele sabia, mas não gostava. E também não explicava, porque para explicar, seria preciso falar.
Dedé gostava de brinquedos. Não tinha muitos, nem precisava. Cuidava bem do que tinha. Eram seus melhores amigos, que falavam somente para ele, e que entendiam seus pensamentos sem que ele precisasse falar.
Um dia, Dedé ganhou um presente novo. Uma bola. Bola é um desses brinquedos que são feitos para brincar no pátio, no parque, na rua, ou no campinho.
Na frente da casa do Dedé, tinha um campinho. Ele viu que não tinha ninguém lá, pegou sua bola e foi lá brincar.
Chutou a bola. Ela foi um pouco adiante.
Dedé respirou fundo, saiu correndo para a bola e chutou, então bem forte.
A bola foi mais longe, até onde acabava o campinho. Dedé correu até lá. Tomou distância e deu um chute ainda mais forte na bola. Ela atravessou o campinho, foi lá no início, onde ele estava antes.
Dedé respirou fundo, começou a correr de volta até a bola. E viu um menino que se aproximava. Lá do outro lado, perto da bola. Sorriu, se preparou para chutar.
“Ele vai chutar minha bola”, pensou Dedé, ficando nervoso. Decidiu que era hora de falar:
- A bola é minha, não é pra tu chutar!
- Oi menino – disse o recém-chegado – podemos jogar juntos. Eu fico aqui, tu vai pra lá, e chutamos a bola um para o outro.
Desconfiado, Dedé ficou olhando, pensativo. O menino chegou muito próximo da bola.
- Então, posso chutar?
Dedé, sem saber muito o que fazer, fez que sim com a cabeça, e se posicionou para receber a bola. O menino ajeitou a bola com o pé direito, e começou a falar, enquanto tomava uma distância de uns três passos para chutar:
- E lá vai Cristiano Ronaldo, se preparando para chutar. Procura um companheiro livre para receber a bola…
O menino chutou na direção de Dedé e continuou falando:
- Passe perfeito! Seu companheiro recebe a bola e se prepara para chutar de volta para o Cristiano Ronaldo…
Dedé entendeu que o "companheiro" era ele. Imitou o menino-jogador-narrador: tomou um pouco de distância e chutou a bola em sua direção. O chute saiu um pouco torto e fraco, mas com três passos o menino-jogador-narrador chegou até a bola e continuou:
- Cristiano Ronaldo vai receber a bola. Ajeitou no pé. Olha que domínio de bola ele tem…
Deu dois toques laterais na bola, levando ela mais para o meio do campo. Fez um movimento que Dedé não conhecia, levantando a bola, tocando ela com a coxa esquerda, depois com a direita, deixando ela cair direitinho no pé esquerdo. Não tomou distância dessa vez, deu um toque que fez a bola subir um pouco, zunir um pouco e parar exatamente no pé direito de Dedé que, desta vez, sorriu.
- Passe perfeito do craque. Vamos lá, vamos lá…
Dedé se animou, dessa vez seu chute saiu um pouco melhor. O menino recebeu a bola dominando no peito. Narrando, deu outro passe de volta para Dedé.
E passou um tempo que Dedé nem sabe dizer quanto foi. Recebe a bola, ajeita, chuta de volta.Toma distância, acerta, erra, tenta de novo, acerta outra vez. Até que o menino disse que precisava ir pra casa, se aproximou de Dedé, apertou sua mão e disse:
-Valeu! Foi muito legal jogar contigo!
Cansado, suado e sorrindo, Dedé chegou em casa com sua bola nova embaixo do braço.
A mãe, ao vê-lo, admirou-se e perguntou:
- Então você encontrou um amigo para jogar bola no campinho? Que legal!
Tão feliz estava Dedé que, desta vez, quis falar. Precisava contar:
- Sim, mãe. Eu estava jogando bola com o Cristiano Ronaldo!

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André Viegas

E-mail: alviegas1981@gmail.com

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