Um dia de Lia


André Viegas

Às seis da manhã, o despertador tocará. A insultar o mundo, Lia correrá para desligá-lo. Respirará fundo, torcerá para que as crianças não tenham acordado. Em cinco minutos, estará vestida e iniciará seu café da manhã.

Conferirá a mochila do maior: tinha tema e não fez. De novo! Do menor, separará as roupas que irão, na mochila, para a creche, e se perguntará se já não será hora de comprar um par de tênis novo – as crianças crescem rápido, tudo deixa de servir, lá se vai gastar de novo.

Ao escovar os dentes, conferirá as últimas no celular. Pelo post, a Carminha irá mesmo se separar. Recado como esse só poderá ser para o marido, mesmo com o mundo todo como plateia. “Rede social é máquina de lavar roupa suja”, pensará outra vez.

O mais velho acordará, já a perguntar pelo celular e, mais uma vez, se fará de desentendido, pois saberá que estará de castigo pela última que aprontou. Irá reclamar, dizer que ninguém o entende, que já não é criancinha pra esse negócio de castigo e que, qualquer dia desses, irá embora, morará com o pai. Só de encarar a mãe ao terminar a frase, se arrependerá, dirá, espontaneamente, que poderá aumentar o castigo, que não era isso que queria dizer, só sentirá mesmo a falta do celular, mas que amará ela, não quererá vê-la triste e irá fazer o tema ligeiro, se isso a ajudará a perdoá-lo. Outra vez, Lia dará um abraço rápido no filho, dirá um “tudo bem” e ficará a blasfemar, em silêncio, pelo garoto ter saído tão parecido com o pai. Falará o que não deve, pedirá desculpas, repetirá o roteiro. “Só que você, eu continuarei perdoando”, pensará.

O pequeno ainda estará a dormir na hora de sair. Lia trocará sua roupa, deixará uma mamadeira pronta, levará ele, no colo, até o carro, enquanto o mais velho tentará se achar com a Matemática atrasada, a engolir uma xícara de café. Mais uma viagem para carregar bolsas e mochilas até o porta-malas, e o vizinho dará seu bom dia grudento, com seus ares fingidos de homem maduro – na verdade, apenas grisalho, com sobrepeso, mal resolvido e um tanto atrevido. Ela mal responderá, pois vive de alerta ligado e reconhecerá, à distância, esse tipo: ficará na espreita, só pela oportunidade de dar uma, de vez em quando, e cairá fora. Não, não me conhece, se achar que serei uma dessas, pensará, a balançar a cabeça, em silêncio. E seguirá o roteiro: escola, professora, creche, cuidadora, trabalho, chefe.

Ao meio-dia, já sentirá saudade dos meninos, enquanto esquentará a marmita no refeitório da empresa.

Ao fim da tarde, o grito de “Mamããããe” e o abraço do pequeno, no portão da creche, lhe arrancará um sorriso e mudará, por um instante, sua opinião sobre o mundo. Chegará em casa, onde já estará o filho maior, estirado na cama, os tênis e meias fedorentas deixados pelo caminho. Será malabar por mais três horas, entre banhos, broncas, janta, limpezas e arrumações.

Às dez e meia da noite, acordará de seu cochilo no sofá, desligará a TV e, finalmente, se livrará da roupa do trabalho. Tomará um banho rápido e dará mais um beijo suave em cada um dos meninos, já apagados em suas camas. Aqueles planos de voltar a escrever serão vencidos pela fadiga. Amanhã, começará, com certeza. Amanhã.

Às seis da manhã, o despertador tocará.


Texto publicado originalmente na Revista Expressão Digital (v16n32-2025): https://expressaodigital.liberato.com.br/?p=14723

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André Viegas

E-mail: alviegas1981@gmail.com

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